sábado, 28 de junho de 2014

Contos Fantásticos - Editora 42


Meu conto: O GRANDE SEGREDO é um dos que compõem esta magnífica obra!

''Dezenove contos compõem a mais recente antologia da 42. E se pelos frutos se conhece a árvore, imagine o time de autores selecionados para essa edição. Ana Paula Salvan, Graça Lacerda, Vanessa Nilo, Maíra Kanegae, Mateus de Grande, Deri Alves, Thiago Augusto Corrêa, Maurício Ieiri, Pã Montenegro e Eleonora Ducerisier.Não espere apenas contos de ficção científica, distopias ou mesmo fantasias. A pluralidade é a principal característica de Contos fantásticos da 42. Ana Paula traz sua escrita coesa, firme, seu olhar atento sobre as emoções humanas; Graça Lacerda fará o leitor ficar boquiaberto, no melhor estilo Nelson Rodrigues; Vanessa Nilo se permite imaginar o inimaginável. Maíra Kanegae traz o conto Os sobreviventes, uma releitura do conto que seu pai escreveu antes mesmo que ela nascesse. Mateus de Grande mostra a possibilidade de unir romance e fantasia, assim como Deri Alves não hesitará em te deixar suavemente desconfortável e surpreso. Thiago Augusto Corrêa nos oferece um triller excelente, e Maurício Ieiri é o responsável pela ficção científica, honrando muito bem o papel. Eleonora Ducerisier traz sua escrita fantasiosa e displicente, assim como Pã Montenegro vai te surpreender com humor e ironia. Não há como descrever os contos. É preciso lê-los! Em junho, pela 42, Contos fantásticos da 42 — uma antologia inesperada.''


segunda-feira, 2 de junho de 2014

CONTO: UM BREVE DESPERTAR





PARTICIPANTES:

LU CAVICHIOLI, CEZARINA DEVOS MACEDO, GRAÇA LACERDA, DULCE COSTA E SU ANGELOTE...

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Estávamos no outono e o frio costumava ser meu companheiro na solidão.
Naquela manhã estava nevando um pouco quando abri a janela num rompante agitado porque o cortador de lenha já estava em frente à cabana empilhando as toras .
Meu pai já estava na cozinha preparando nosso desjejum, então me apressei correndo para o banho tal era minha ansiedade em usar aqueles produtos que Jane trouxera ontem. Meus cabelos estavam desidratados e duros como palha de aço. Ela sempre dizia: “uma moça precisa estar bem cuidada, principalmente se estivesse em idade de casar”. – não era meu caso, embora eu já tivesse passado dos 25 , porém meu pai, meu cachorro e meus livros era tudo que eu precisava.

A banheira já estava espumando quando entrei. . Devo confessar que naquele instante senti uma leve necessidade em estar acompanhada, mas logo varri essa idéia da cabeça concentrando-me nos cremes e sabonetes que olhavam pra mim exalando seus perfumes.

Os latidos de Jimmy estavam insuportáveis, enquanto meu pai ralhava com ele, e tudo por conta do lenhador. Jimmy detestava lenhadores e suas tralhas.
Mais tarde, depois da caminhada eu voltaria para a máquina de escrever. Havia capítulos por terminar e minhas idéias estavam nubladas.

Vesti meu velho e maravilhoso casaco marrom e coloquei meu acetinado chapéu marrom, tudo combinando. Corri para a porta e desci rapidamente a escada que me levava à rua.
Papai havia comprado nossa casa com os sacrifícios diários de seu trabalho, e agora ela estava hipotecada, para nossa tristeza e desolação.
Vasculhei as lojas da cidade à procura de um presente para Jane, afinal ela era minha melhor amiga e me trouxera perfumes e produtos de beleza na véspera. Mas eu não podia retribuir à altura tamanha generosidade! Tudo o que eu podia oferecer-lhe era o que uns trocados podia comprar.
- Vinte dólares - disse a vendedora.
O vento frio e a neve entravam em meu espírito e me traziam doces e ternas recordações.
Emergida em meu transe, voltei para casa, onde um café estava sendo preparado e uma frigideira quente no fogão a lenha esperava o momento de fritar os ovos com bacon, minha refeição preferida.
Quando olhei o grande relógio de ouro da sala, vi que o tempo havia se arrastado e eu nem havia percebido!

Terminado o café, subi para a biblioteca na intenção de trabalhar nos capítulos que ainda faltavam. Meu editor estava intransigente, não abriria mão da data estipulada para a entrega dos originais do livro. Mas parecia que uma guerra estava se desenvolvendo entre meus personagens e eu, como se eles tivessem tomado vida própria, como se quisessem seguir seus próprios caminhos e não aquele que originalmente lhes fora traçado.
Mais de uma vez isso acontecera e no final eu sempre acabava deixando que eles fizessem suas escolhas, que eles encaminhassem a história. Confesso que nem sempre encontro coragem para enfrentamentos, nem mesmo com personagens criados por mim mesma. Mas desta vez não cederia.
Sentei-me diante da máquina, relendo os últimos parágrafos escritos, para poder bem retomar a história e, com um sorriso meio sarcástico no rosto, murmurei entre dentes: "Muito bem Dr. Hernandez, vamos ver se o senhor vai ou não vai àquele jantar..."

Ylana respirou fundo, decidindo dar um rumo a Hernandez antes que ele a transformasse em sua escrava. Sentou-se em frente a maquina de escrever, e sua memória voou ao passado:

Ylana era frágil e sensível, e tinha uma capacidade instigante para criar. Talvez por isso sua mente lhe pregava peças como naquele domingo, quando ainda tinha 18 anos e estava em férias na casa dos avós no litoral sul da cidade.

Ela molhava o jardim, na frente da casa, e estava metida num shortinho jeans com a barra em fiapos e uma regata azul bordada em miçangas que lhe conferia o aspecto de bonequinha de vitrine. Os cabelos de um louro acinzentado brincavam com a brisa que vinha do mar. Os pés estavam nus e experimentavam a liberdade juntamente com a água que escorria da mangueira. Estava tão entretida dentro da paisagem que nem percebeu que alguém se aproximava. Estava agachada arrancando algumas ervas-daninhas do canteiro quando sentiu um toque firme e extremamente inesperado. Num sobressalto levantou-se e viu a figura de um homem de meia idade que trazia já a prata do grisalho nos cabelos desalinhados . No rosto exibia um breve sorriso camuflado por óculos escuros e a boca fazia prenúncios de fala, valorizando a barba cerrada ainda acastanhada.

_Boa tarde senhorita, seu avô está?

Meio sem fôlego e ainda caguejando, Ylana se recompôs dizendo:

_A quem devo anunciar, senhor?

_ Dr.Hernandez, a seu dispor.

E antes mesmo que eu pudesse dizer: - não se encontra, ouvimos todos, estarrecidos, um grande grito, que abalou a casa toda.
- Corram!

Com lágrimas a lhe escorrer pelo rosto Ylana retornava ao presente fazendo um esforço enorme para continuar a escrever e também disfaçar sua tristeza para que seu pai não percebesse.

Entrementes a moça cogitava um pensamento:
"... Se não fosse Hernandez naquele dia, nem sei o que seria de mim."

Lembrava-se claramente dos momentos terríveis por que passara naquele dia. Ao ouvirem o grito, ela e o Dr, Hernandez entreolharam-se aturdidos e sem que uma palavra fosse dita correram em direção à entrada da casa. Subiram os degraus em desabalada carreira e ao abrirem a porta deram com a empregada da casa segurando nos braços a velha senhora que, desfalecida, trazia no rosto uma palidez assustadora.
Sem uma palavra, o Dr. Hernandez tirou-a dos braços da moça colocando-a sobre o chão de mármore do vestíbulo, começando ali mesmo a aplicar os primeiros socorros enquanto Ilana, chorando, dirigia-se ao telefone para, obedecendo a uma ordem dada pelo médico, chamar uma ambulância.

A moça lembrava ainda do dia seguinte...Uma garoa fina descia do céu como uma esgarçada gaze cinzenta,deixando as cores da paisagem,esmaecidas.O lento passar das horas naquele corredor imenso,em sua alva brancura resplandecente e imutável,que divisava da sala onde estava, apertava seu coração...No fim do corredor,sobre uma estreita janela,um relógio marcava,implacavelmente o tempo. O hospital onde estava sua avó era um prédio moderno e frio,bem equipado e famoso por seus profissionais...Mas,sentada na sala de espera a moça perdia-se na contemplação muda das pessoas que transitavam ali,entrando ou saindo pela grande e envidraçada porta giratória,que qual boca gigantesca,despejava pessoas desconhecidas...Era multidão,mas Ylana sentia-se desesperadamente só.

Não era fácil para Ylana pensar que poderia vir a perder a sua avó. Lembrou-se do dia em que se encontrara naquele mesmo hospital, esperando no colo de seu pai por notícias de sua mãe que estava na sala de cirurgia.
Ylana perdera sua mãe antes de completar oito anos. Um câncer generalizado em seus órgãos pos fim a sua jornada terrestre aos 38 anos de idade. Lágrimas escorriam da fase de Ylana. Pensou em seu pai, que nunca conseguira refazer sua vida amorosa. Lembrou-se da sua infância solitária e dos poucos amigos. Quando seu pai precisava viajar deixava-a sob as guardas de seus avós.
Ylana despertou de seus pensamentos e voltou para a realidade. Precisava dar um destino para o personagem Hernandez. Quantos livros escrevera desde que descobrira o seu dom? Ela sabia que seu personagem tinha vida própria. Se ela fosse verificar seus outros trabalhos, certamente encontraria “Hernandez” com outros nomes e outras funções. Ylana sabia o que tinha acontecido naquela tarde quando o conhecera. Ela tinha apenas dezoito anos, mas apaixonara-se ao ponto de nunca mais conseguir olhar para outro homem.
Uma brisa entrou pela janela deixando o perfume de seu corpo no ar. Uma sensação de prazer passou por si e ela imaginou o seu personagem como alguém que desejava amar. Entregar-se. Desejou naquele momento não só o personagem, como o homem que batera a porta de sua avó naquela tarde.
O telefone tocou e Ylana despertou de seus pensamentos.

Com os olhos revirados e a boca retorcida, Ylana disse um alô enjoado pois do outro lado era Garcia, seu edtor.

Enquanto escutava o lenga lenga insistente sobre a capa ,orelhas e contracapa de seu livro, a moça fitava a branca paisagemm que rodeava seu chalé, deixando sua mente voar naquele céu nostálgico em prenúncios de fim de tarde.

Garcia tagarelava adjetivos e preposições num emaranhado de perguntas até que Ylana o interrompeu:

_Ok Garcia, já falamos sobre tudo isso. Na verdade, acho um pouco cedo para a escolha da capa. O texto de contracapa, já está finalizado e tem uma íntima ligação com a imagem da capa. Portanto ainda estou estudando. Dizendo isso,desconversou, despachando o editor.

Quando ia virar-se na cadeira para chamar seu pai, deparou-se com ele segurando uma bandeja de inox com toalha em macramê rosada e sobre ela um suco e duas fatias de pão com geléia e pasta de amendoim.

Ylana sorriu agradecida, pronunciando o queixo e beijando a face de seu velho e querido pai.

Naquela noite,Ylana escreveu até muito tarde...Sua mente fértil criava sem parar! Foi deitar-se quando as estrelas se desvaneciam e a madrugada debruçava-se sonolenta sobre os primeiros e tímidos clarões de um novo dia.Tomavam o café sentados em torno da mesa redonda da cozinha,os dois,Ylana e seu pai,enquanto Thor,seu gato de estimação dormia sob a janela...O sol punha chispas de luz nos objetos e,na toalha axadrezada da mesinha gotejava pingos de um amarelo vibrante.O retinir áspero da campainha da entrada veio quebrar a paz do momento,como uma pedra atirada num lago parado e silencioso..."Quem será?"murmura Ylana surpresa,arredando a cadeira e levantando-se....

O carteiro segurava um envelope cheio de selos coloridos e o entregou a Ylana,sorridente."Bom dia,menina!"Ele a conhecia desde criança...Despedindo-se entre sorrisos o velho carteiro se foi pela estradinha sinuosa de terra vermelha,debruada por uma verdejante cerca viva,montado em sua bicicleta .
A moça olhou o envelope e divisando a letra conhecida estremeceu,como se um vento frio a percorresse toda!Uma letra bem feita sobressaía entre os selos comemorativos...Exma srta Ylana Vlasekh...e virando o envelope surgiu o nome do remetente! Seu coração disparou num assomo de emoção!Podia-se ouvir o arfar de sua respiração entrecortada: Dr.Hernandez Valenzuela y Herrera. "Meu Deus!Ele de novo...depois de tanto tempo sem dar notícias!" E as cenas de uma triste e emocionada despedida surgiram-lhe diante da memória...Uma cena acontecida há nove anos atrás! Uma cortina salgada de lágrimas embaciavam seus olhos quando,envelope ainda fechado nas mãos,entrou em casa...

Ao bater a porta cabisbaixa, logo percebeu o olhar do pai em sua direção.
Henry olhou para a filha , abaixou a cabeça, mordendo levemente os lábios indagando em seguida:

_ Carta daquele homem, filha?

Ylana, limitou-se a responder com um simples vai e vem do pescoço, enquanto as lágrimas rasgavam suas entranhas.

_Filha, espere. Olhe pra mim... Você precisa resolver esta situação. Estou velho, por vezes caducando e quando me for, você ...

Ylana interrompeu o pai bruscamente:
_ Pare com essa conversa, o senhor sabe que detesto ouvi-lo falar desse jeito.

Meneando a cabeça Henry afastou-se e seu íntimo lhe dizia que algo de novo estava para acontecer.

Sentada na poltrona vermelha de seu quarto,Ylana rasgou o envelope com dedos trêmulos.A bela letra graúda e elegante embaciava-se diante dos olhos da moça...Cenas do passado passavam como flashs diante dela. Com seus dezoito anos, em plena adolescência,apaixonada por um homem que tinha idade para ser seu pai!Um homem cujos cabelos grisalhos e olhar cansado roubara-lhe o coração cheio de sonhos inocentes...Ele que lhe prometera casamento e a enganara com suas promessas .

Era este homem que agora lhe escrevia solicitando-lhe o favor de receber e auxiliar seu único filho que vinha para a Universidade de Oxford fazer Mestrado em Fine Arts!O pai da moça era professor aposentado de História Antiga na referida Universidade e,os dois moravam numa antiga casa de campo nos arredores da cidade.O Dr Hernandez e Ylana sempre mantiveram uma aparência de amizade entre si e ninguém nunca suspeitara de que tivessem tido um caso tórrido de amor.Sómente o velho professor Henry sabia da história porque a filha lhe confidenciara...E só a ele Ylana revelara seus segredos que entretanto,voltavam agora das brumas do passado para atormentá-la.
Juan Miguel Herrera desceu do avião e atravessou a enorme passarela em direção às dependências modernas do aeroporto.Teve que aguardar meia hora pelas suas bagagens. Quem o visse naqueles momentos em sua aparente calma,não suspeitaria do fogo oculto em seu coração, de seu caráter apaixonado,da sua perseverança quando desejava obter alguma coisa, enfim de sua alma cigana.

Juan exibia uma personalidade de traços fortes,resultado do sangue espanhol de seu pai e, principalmente do sangue Kalon, de sua mãe que pertencia a um Clã cigano da Península Ibérica.

Momentos depois já de posse de suas bagagens,duas malas de couro negro e macio, parado à beira da calçada,esperava numa longa fila o táxi que o levaria ao hotel.

Tinha uma bela e elegante aparência aquele jovem de 3o anos:cabelos semi-longos de um negro luzidio e profundo,emoldurando um rosto anguloso,cujo queixo quadrado evidenciava ainda mais os traços gitanos...Os olhos,de um verde transparente,como duas líquidas esmeraldas,tinham um jeito penetrante,misterioso de olhar as pessoas...Ele as mirava direto,fixamente,como se entrasse em suas almas,descobrindo segredos.Um olhar de lobo.

O nariz reto, de narinas arfantes e belas,realçava uma boca larga de lábios decididamente firmes e sensuais...A sombra de uma barba escura, evidenciava o semblante másculo e atraente. Mas o que chamava atenção eram os cílios escuros e longos em contraste com o olhar claro e magnético! Uma figura apaixonante.

Mas havia algo nele,em todo esse conjunto de eletrizante beleza,que o tornava ainda mais enigmático:um certo quê de revolta contida...um ar de felino espreitando na sombras pronto para saltar sobre a presa. Uma inquietante sensação de incerteza das suas reações no instante seguinte.
Que segredos estavam escondidos naquela alma indevassável e inquieta?

Ylana aguardava,sentada a uma mesa, num canto resguardado por um biombo chinês,cujas pinturas delicadas em cada um dos quatro painéis de papel de arroz traziam recordações da China Imperial,naquele restaurante em estilo vitoriano.

O filho de Hernandez lhe telefonara na noite de sua chegada e haviam combinado encontrar-se naquele lugar para unir um jantar agradável a uma conversa necessária. No aconchegante salão haviam oito mesas de quatro cadeiras, cada uma recoberta por alvas toalhas de cetim adamascado. Ao centro das mesas um pequeno abajur de bronze dourado com cúpula de vidro fosco, estilo Art Nouveau,que lembravam flores róseas.

Ylana tentava disfarçar sua impaciência,mas evidenciava sua inquietação nas mãos que retorciam um guardanapo à sua frente. O grande relógio marcava 20.35hs quando o rapaz chegou ao restaurante quase cheio.

Ylana sentiu um arrepio gelado percorrer sua espinha. Suas mãos suavam,nervosas.
Os olhos verdes a miravam diretamente. A boca sorria mostrando uma fileira de dentes perfeitos. Mãos morenas apertaram as suas,quentes e macias.

O homem puxou a cadeira à sua frente e sentou-se. Tudo nele exalava uma aura de elegância e finesse. Entretanto a moça teve a súbita sensação de estar à espreita,numa situação de presa sendo cobiçada por um felino ágil...Que estranha sensação seria essa?

O sorriso quase brando, porém enigmático, daquele homem sentado ao seu lado, com o olhar altivo e cheio de mistérios, fez com que ela não sentisse absolutamente nada agora, além do imprescindível.Fixava, com atenção incessante, os olhos dele, e aplicou um esforço sublime para acompanhar os pensamentos daquele homem elegante e fino.

- Não posso fugir - pensou.
E, antes que pudesse levantar novamente os olhos para mirar outra vez os dele, veio a inevitável pergunta, que a assustou por um segundo:
- Por que foges, não de mim, mas de ti mesma?

Ylana quase desfalece, enquanto ele continua a observá-la, atento. Porém, sente-se desta vez perturbadoramente lisonjeada e cruza suas pernas, gentis e perfeitas, numa proposital languidez.

Aquela expectativa a incomodava, sem dúvida. Nenhum sinal claro de que tudo não passava de um enorme pesadelo, e que, por fim, sua presença ali não seria de todo inútil.
Receava, isso sim, que todos os segredos fossem impiedosamente desvendados, porém sentia-se estranhamente confortável.

Meu pai lhe manda um abraço srta"... Entre uma garfada e outra e um gole de vinho cor de âmbar,Ylana e Juan iniciaram uma conversa superficial, mas politicamente correta.

Pairava no ar,entre os dois um clima de tensa expectativa. Os olhos de Juan Miguel,magnéticos,atraiam o olhar da moça e a faziam tensa. Porém,lentamente foi sentindo-se melhor,mais a vontade. Talvez por efeito do vinho,relaxar as defesas e logo a conversa tornou-se mais amena e gentil.

O restaurante oferecia música ambiente e o casal escolheu uma mesa de canto, aconchegada por uma arandela triangular de um vidro fôsco lapidada com segmentos florais. A intensidade da luz era controlada ao lado, na parede, oferecendo um ambiente mais acolhedor.

Lá fora uma chuva que prometia ser impiedosa castigava a janela central, enquanto o vinho, elegantemente descansava na taça.

Ylana fitava o rapaz admirando a beleza marcante de seus traços e o estranho poder de sedução que dele transpirava. Fosse nos olhos, na pele, no hálito... Até que pigarreando quebrou-se o gelo:

_ Mas Sr. Juan, o que de tão importante o trouxe repentinamente até nós?
Seu olhar de esmeraldas alagou o rosto da moça de tal forma que ela viu-se envolvida por um nevoeiro de sensações que a faziam sentir-se em suspensão quando ele disse:

__ É verdade, senhorita! Ms vamos deixar de lado as formalidades, peço que me chame apenas de Juan. E eu gostaria de abolir o "senhorita", ME PERMITE?
__ Certamente Juan, vamos abaixar a guarda.

Com um sorriso maroto, Juan assentiu com a cabeça e prosseguiu:

__Soube da hipoteca de seu chalé e meu pai enviou-me para saldar a dívida e fazer-lhes uma proposta. Queremos comprar o imóvel.

Ylana gelou e suas pernas ficaram sem forças.Suas pupilas dilataram-se e sua boca ressecou rapidamente. Seus lábios entreabriram-se na tentativa de algo exprimir, mas preferiu tomar um generoso gole de vinho,recompondo-se na cadeira.

-A propósito Juan, o que mais seu pai lhe contou?

Saboreando o último pedaço de um suculento bife, o rapaz elegantemente, limpou o canto da boca, colocando em seguida o guardanapo sobre o colo e o cotovelo sobre a mesa, inclinando-se mais perto de Ylana dizendo:

__Curioso, mas eu sinto que há um certo mistério que a envolve ao passado de meu pai... Desculpe a ousadia ,mas estou certo?
__Você é muito inteligente e ardiloso meu caro, e não dá ponto sem nó. Creio que eu lhe fiz uma pergunta primeiro ou não?

Juan a olhou fixamente e de sua boca transpiravam rosas que abriu-se nu sorriso cálido e convidativo.
__Claro que sim, e te respondo. Meu pai não fala além do que lhe é conveniente. O velho é impertinente e ultimamente vem se mostrando uma pessoa de difícil convivência...

Talvez pela atmosfera mágica daquele lugar aconchegante,pelo ruído da chuva que caia agora mais fraca,lá fora,pelo vinho que já haviam tomado quase todo,fosse pelo que fosse,os dois deixavam-se atrair...Aquela sensação prazerosa,sensual que sempre flui entre homem e mulher em plena força de sua mocidade,acontecia agora,quase palpável,forte,entre Ylana e Juan.

As mãos que se seguravam sobre a mesa,o afago doce daqueles dedos longos e morenos,o olhar profundo e verde do jovem faziam arder a pele clara de Ylana...Mil sensações despertadas faziam a moça sentir um desejo louco e arrebatador por aquele homem atraente que trazia consigo a sensualidade e o mistério dos Filhos do Vento,do Povo dos caminhos...Contou-lhe sobre o passado...sobre sua paixão por Hernandez...Enquanto ouvia,Juan mantinha o olhar semicerrado,como se vislumbrasse as cenas.

Aos poucos iam se tornando mais próximos,mais íntimos. A moça,pela solidão amorosa em que vivia,permitia-se mergulhar naquela maravilhosa sensação de estar sendo desejada e querida.O rapaz,atraído pela beleza e sensualidade da jovem mulher,pelo calor que dela emanava,cumpria com prazer redobrado aquilo que a Natureza espera sempre de um homem:a conquista da fêmea.

Na penumbra que os rodeava, escondidos de todos os olhares pelo vidro fosco do biombo chinês,seus lábios se procuraram àvidos,selando com um beijo um pacto amoroso.

Na penumbrosa luz de seu quarto solitário jazia a escritora.
Sentada à escrivaninha de mogno escuro,debruçada sobre os papéis onde digitara o ultimo capítulo de seu romance,adormecera...
A bela cabeça loura,as faces levemente rosadas,Ylana dormia à sono solto,vencida pelo cansaço.Pela janela aberta entrava a brisa da noite,perfumada e fresca,trazendo consigo os sons misteriosos da escuridão.

"Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.... " ***

***(Poesia de Juan Jamón Jiménes:Eu não voltarei.)
FIM
Dez/2009

segunda-feira, 28 de abril de 2014

CONTO INTERATIVO - "MEU MUNDO E NADA MAIS"

CONTO INTERATIVO - UMA AVENTURA E TANTO!
¨**¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*

"MEU MUNDO E NADA MAIS"

(PARTES I,II,III e IV)

PARTE I
Alguém poderia perguntar: “nesse mundo tinha gente?” Talvez...
“Do alto do antigo edifício de biscoitos eu observava figuras esquálidas que mais pareciam retalhos de gente, que se agitavam em passadas frenéticas”.

Bombinha era sobrevivente do velho “mundo”. Era uma espécie de museu ambulante, posto que trouxesse consigo histórias de humanidades e suas (possíveis) vidas.

Nesse estágio de sua passagem pela Terra, ele ainda mantinha a mesma postura de antes. Estatura mediana, rosto arredondado e olhos de azeitonas gregas. Seus cabelos já mostravam que ali nasceria em breve uma carequinha simpática e totalmente inusitada naqueles dias de transformação.

Metido em uma camiseta (Hering) desbotada revelava a pança que (com certeza) deveria ter nascido com ele. Usava na ocasião da fuga (há tempos) uma bermuda caqui, esfarrapada e “chechelenta” como ele todo.

Suas bochechas ainda guardavam o formato das maçãs que não eram assim tão vermelhas como dantes. E na boca lhe sobrara alguns dentes e um picador de papel na arcada superior.

A fábrica de biscoitos há muito arrasada, era agora seu lar. E sorte a dele porque no subsolo existia uma passagem secreta onde ele fazia suas refeições fartando-se do carboidrato que sobrou antes do cataclisma fomélico da geração vigente.

Um dia qualquer Bombinha construiu um radinho de pilha, mas não havia mais pilhas , então ele utilizou uma bateria que roubou de um oldsmobile amarelo no fim da rua que restou lá na esquina do fim do mundo. Ele esperava comunicar-se com algum ser vegetal, assim ele não precisaria dividir seu carboidrato com ninguém.

De repente lembrou-se de sua velha mãe que ficava na beira do fogão fritando batatas enquanto ele sorvia uma garrafa de coca-cola glicólica.
Bombinha chorou! (continua)
*Lu C.

PARTE II
Imaginando-a surgindo sorrateira na soleira da porta, Bombinha chorou. E entre as lágrimas que escorriam pelo seu rosto bochechudo, recordou a estranha aventura pela qual passara todos esses bilhões de anos! Por um breve momento (questão apenas de alguns anos-luz), Bombinha cogitou que, desta vez, sim, desta vez possuía uma missão mais que especial, única, e talvez a última de sua extenuante jornada. Os outros mundos de onde viera e onde passara seus últimos e ricos bilhões de anos não lhe concederam, infelizmente, aquilo de que Bombinha mais precisava e que seu coração mais ardentemente desejava! Ser aceito incondicionalmente. Era tudo.
Bombinha era de tal modo viajante e conhecedor dos mistérios cósmicos, que isso não lhe permitiu ter contato de perto com palavras que não pertenciam a seus mundos! Definitivamente, não conhecia palavras como indiferença, desafeto, desamor, frieza, incoerência, corrupção. Nada disso pertencia a seu pequeno grande dicionário, já que era também um museu ambulante, na estratosfera e fora dela.
Certo dia calmo como aqueles em que as rãs brejeiras e as lagartas gostam sempre de se espreguiçar, Bombinha recebeu a inóspita visita de uma figura humana, vestida de um uniforme esquisito, acompanhado por mais alguns, do mesmo modo de se vestir, e ele não entendeu nada, apenas que eram sérios e não chegaram para brincar com ele, como faziam seus amiguinhos no porão.
Ao vê-lo em suas vestimentas simples, rústicas e um tanto descuidadas, os humanos deram-lhe ordem de prisão. Continuando sem entender o que se passava, Bombinha, criatura que viera do cosmos mais distante e que conhecia todas as via-lácteas desse infinito universo, passeava por elas, ficou a olhar aqueles homens de farda, muito diferentes dos que viviam com ele no subsolo da casa grande, a que chamava seu lar, e onde só havia moradores ilustres, companheirinhos de chão e de coração, na acolhedora e antiga fábrica de biscoitos! Fábrica que ele temia também ser desapropriada pelos que se chamam humanos, e aí - pensava, agoniado - onde iria morar?...
Sim, ele que conhecia e convivia apenas com seus ilustres moradores, via-se agora envolvido com agentes policiais, homens da lei, que vieram para buscá-lo, pois uma denúncia anônima ressoava nas praças públicas, em todos os cantos daquela quase cidade-fantasma, que Bombinha era um refugiado sem chances, pois pertencia a alguma espécie de máfia.
Pobre Bombinha, herói supergaláctico, não tinha ninguém em quem confiasse o bastante, para tirá-lo sem mais demora daquela deplorável e inacreditável situação.
E, uma vez mais, nosso Bombinha - indefectível museu ambulante - chorou!(continua)
*Graça Lacerda

PARTE III
Quando Bombinha se viu acuado por homens altos, carrancudos e desprezíveis, escondeu rapidamente seu estoque de biscoitos, lançando um olhar desafiador do tipo: "como se atrevem a invadir propriedade alheia". Foi aí que percebeu que eram soldados e se perguntou se essa estirpe ainda existia depois do cataclismo em que a Terra fora vítima. Levantou-se com dificuldade porque eu peso já excedia sua cueca samba canção e aíi fez um sinal aos homens para que esperassem. Em seguida desapareceu em um dos vários labirintos que a fábrica escondia. E quando voltou, veio transformado: Exibia uma boina camuflada e um blaiser um tanto esfarrapado. Vestia um índigo blue amarrotado e cheio de manchas de graxa e nos pés um coturno bem desgastado. Chegou empinado e já batendo continência para os carrancudos de plantão que já demonstravam impaciência. Tomou coragem e encarando-os disse: - O que querem e como entraram em minha propriedade? Esta fábrica pertence a meu pai e agora a mim, por direito. E... de onde foi que vieram? De qual galáxia e qual o planeta? Por favor queiram se apresentar. Dito isso, abriu uma lata de biscoito de chocolate recheado de baunilha e mandou ver, enchendo as bochechas de sabores. Os homens rústicos se entreolharam, balançaram a cabeça fazendo caras e bocas... Enquanto um deles disse: Caso perdido! Vamos deixá-lo com sua pança e bochechas rosadas comendo desordenadamente; isso enquanto houver biscoitos. Mas o que eles não sabiam é que Bombinha escondia algumas surpresas no porão. E depois dessa nem descobririam, a não ser que algum caminhão coberto com lonas chegasse de supetão naquele exato momento. E assim, Bombinha descansou enquanto sorvia de canudinho sua bebida glicólica... (continua)
*Lu C.

PARTE IV
Pensou, pensou e como seus pensamentos moviam-se à velocidade da luz, justo num clique Bombinha conseguiu finalmente dar sua primeira gargalhada, desde que desandara a percorrer mundos e universos astrais, esfomeado, devorando como um leão pacotes e pacotes de biscoitos high-tech! Não apenas riu da situação em que se encontrava, mas sua gargalhada soou tão gostosa (e balofa!) que estremeceu céus e terras, cantos e recantos da nada mole vida do intergaláctico viajante. Ora, Bombinha não era por natureza um imenso museu ambulante? Toda sabedoria dos séculos e dos milênios ele retinha consigo, desde o início dos tempos. Por essa sua singular natureza, conseguiu, como num passe de mágica, passar, de acuado que estava, a valente e corajoso soldado - mesmo que ''de mentirinha'', pensava, e continuaria a colocar pra correr valentões carrancudos, fazendo-os darem ''meia-volta, volver!'', colocando-os sem violência alguma para fora de sua propriedade, herança de seu amado pai. A fábrica era dele, pronto! Que petulância, a desses homens da lei, sobreviventes como ele, talvez nem fossem reais! E em suas gordas reflexões recheadas de sabedoria e de biscoitos, Bombinha considerou que pudesse ter sido apenas mais um daqueles sonhos esquisitos que tinha sempre, e dormiu. Estava exausto: de comer e de pensar. E quanto mais pensava, mais comia. Comia com tal voracidade, que cansava.
Enquanto isso, os homens rústicos bateram em retirada e logo se podia vê-los gesticulando com outra criatura, em semelhante ação de abordagem, numa outra propriedade, não muito longe dali.
-Todos têm sua missão, retrucou Bombinha, namorando o centésimo pacote.
Depois disso, aquietou-se. Logo em seguida, começou uma sessão de gargalhadas, quanto mais altas, mais balofas, só ao lembrar que apenas algumas roupas surradas e o seu solene bater de continência, foram suficientes para intimidar a afugentar certas criaturas também sobreviventes do cataclisma na Terra! Bombinha estava certo de que eles não o incomodariam mais. Nunca mais! E ria, às gargalhadas soltas! E quando ria, sacudia a enorme pança que adquiriu em suas andanças pelas viagens astrais. Nesse momento, não conseguiu ingerir os últimos biscoitos recheados de chocolate! Os recheios sim, ele comia numa fúria gigante, pois os devorava primeiro, nessa sua gula transcendental! Os farelos dos biscoitos caíam, caíam...e Bombinha ria e ria ao perceber que seus amiguinhos moradores do porão estiveram o tempo todo ali, ao lado dele, alimentando-se das sobras que ele deixava cair, como se pudessem protegê-lo de todo perigo que seu amigo pudesse correr!
Com o tempo, Bombinha passou a comer mais e mais. Comia agora diariamente outras guloseimas. Ingeria a bebida glicólica em doses assustadoras, devorava sozinho uma pizza para doze, um copázio de pipoca de cada tempero e sabor, e um belo dia acordou e viu que seus belos olhos azuis foram ficando ainda mais vidrados e sentiu compaixão de si mesmo, pela primeira vez! Só conseguiu ver que o enorme sanduíche, que mal cabia na palma de sua própria mão, agora, ao contrário de momentos antes, dava gargalhadas de sua triste e incontrolável situação.
Pobre Bombinha! Obeso, segredos guardados nos labirintos da Fábrica e ainda com uma, apenas uma MISSÃO a cumprir. O que fazer? Mais uma vez, Bombinha quis chorar, porém como agora possuía o controle de seus sentimentos, engoliu o choro, deixou guloseimas, levantou-se determinado e saiu, levando um propósito bem definido em seu coração. Tomara uma atitude. Qual seria? Onde teria ele ido e o que teria ido fazer? (continua)
*Graça Lacerda 


EPÍLOGO

Nosso garoto amarrotado, obeso e solitário sentia-se desolado. Ao sair de seu sofá cor de burro quando foge no andar térreo da fábrica, olhou tristemente para o saco de biscoitos de baunilha e sua inseparável “mamadeira” cibernética pela qual sorvia o líquido mais doce que conhecera na vida... Coçou a nuca, meneou a cabeça, sorriu brevemente ao ver um pássaro sobrevoando a praça destruída e, decidiu então descer sorrateiramente uma escada em formato de caracol que ficava do outro lado da sala. Enquanto seu rosto exibia o pavor das guerras, decerto iria travar uma.

Ao chegar a um dos corredores subterrâneos ouviu um barulho estranho que vinha de um dos labirintos, o maior deles. Era um tanto escuro e pegajoso, mas Bombinha conhecia cada palmo de chão e assim foi andando pé ante pé e foi aí que viu uma sombra esgueirar-se rapidamente para outro segmento daquele vasto salão que mais parecia um quebra cabeças gigante.
Bombinha levou um susto enorme e sua boca abriu porque seu cérebro corpulento o impulsionava a engolir batatas fritas que ele guardara no bolso já alguns dias e que tinha roubado da sacola de um dos homens carrancudos. Sentia-se seguro mastigando algo e/ou mascando borrachinhas coloridas que encontrava pela fábrica.

Ele sabia que não poderia mais fugir de sua decisão, ou missão. Apertou o passo e gritou:
-Quem está aí? Saia imediatamente porque estou armado... ARMADO? Ora bolas... Bombinha achava que poderia se defender com uma gravata que tinha achado nas coisas do pai e em sua cabecinha de melão a usaria para estrangular a tal sombra.

Parou, limpou o suor da testa e gritou:
_Apareça seu ladrão de biscoitos, seu larápio e surrupiador de balas. Pensa que eu não sei que você está atrás de meu baleiro - gatuno?!

A sombra passou de volta e mais rápido que antes.

Bombinha correu e achou a passagem secreta, mas ela se tornara pequena para seu corpo de barril, mas mesmo assim tentou passar. Era uma portinhola de madeira com um trinco cheio de zinabre e muito fedorento. Estava se esforçando para entrar por ela quando sentiu um toque em seu ombro. Um toque nada sutil, aliás, a mão era bem pesada e os dedos eram grandes e fortes.

Nosso amiguinho ficou entalado, tanto pelo medo quanto pela pança de carboidrato e tremeu na base. Foi aí que fez força para sair da fenda e quando olhou para trás nada viu. Pensou que estava ficando louco de vez.
Depois de se refazer do susto, sentou-se no grande corredor e proferiu algumas palavras...

_ Eu sabia que você viria algum dia, eu esperava por isso. Mas precisava ter uma mão tão pesada? E por que não mostrou seu rosto, já que foi tão valente para me tocar? RESPONDA SOMBRA INÚTIL!

A ira tomou conta de Bombinha e ele caminhou de volta chutando toda sorte de parafernálias que encontrava, chegou à boca da escada de caracol e subiu bufando...

Mas quando adentrou no andar térreo deu de cara com uma figura “estreboscópica” sentada em seu sofá burro quando foge. E o pior, estava sorvendo sua bebida glicólica e devorando seus últimos biscoitos.

Bombinha estancou. Ficou tão pasmo que sua voz não conseguiu subir até a boca.
A figura em questão, sentada no sofá, era rosada e devia pesar uns 300 quilos ou mais. Vestia um camisolão surrado e empanturrado de manchas que deveriam ser de molho de tomate, ou suco de abacate... Ou quem sabe cobertura de sorvete e o que mais - VOCÊ, leitor, quiser imaginar...

Os olhos eram esbugalhados e a bocarra exibia um sorriso cariado.
Nos pés não cabiam mais sapatos, porque eram disformes...
Quem seria essa aberração?

Num ímpeto Bombinha o encarou dizendo?

-Muito bem montanha humana, quem é você e o que faz em minha casa? Pensa que é dono do mundo, e que pode comer minha comida assim sem pedir licença?
VAMOS, FALE!

... Ajeitando-se no sofá, a montanha humana respondeu:

- Sou a sua consciência!

(* Lu Cavichioli)

À SOMBRA DO CASARIO

À SOMBRA DO CASARIO
(Um conto a 4 mãos)

Angella ainda permanecia hospedada em casa dos Freeman. Para ela ainda era conveniente porque sentia paz, pelo menos aparentemente.
A casa ficava no alto da colina de Crowel, no sul da Escócia, e era ladeada pelo jardim mais lindo que já vira abraçado à fragrância de lírios e hortênsias que coloriam as manhãs, enquanto o sol inundava de verões a linda cidade encravada no condado de Seaground.
A propriedade ostentava um lindo portão branco e fosco e a casa , construída no meio do terreno lhe conferia a magnitude dos castelos.
O telhado era de um vermelho- terra e contrastava com as lajotas brancas que compunham as paredes externas. 
Aproveitando o ensejo, deveria terminar seu livro e voltar rapidamente ao Brasil, mas sua cabeça fervilhava depois do encontro com Joe, após dez anos. Em toda sua vida sonhara com aquele momento.
Quando a noite revelava sua face azulada, Angella resolve ir até ao Little Bear Pub. 
Carne acebolada com batatas douradas seria ótima companheira para uma caneca de cerveja. Vestiu-se de anil saindo em seguida.
No caminho seus pensamentos a torturavam. Lembranças do acidente que perdera marido e filho assombravam seus olhos. A estrada era escura, mas por sorte logo avistara o luminoso alaranjado do pub.
Caía uma chuva fina e morna, o que tornava a noite melancólica. Angella entrou rapidamente. O ambiente estava mergulhado em névoas de nicotina dando um tom bruxuleante nas arandelas que abrigavam cada mesa. Absorta em seus fantasmas ela avista os ombros bem torneados e fortes de Joe. A nuca morena, já com fios grisalhos revelava o charme desenfreado que ela nunca conseguira conter. Seu coração já aos pulos dava sinal de um desespero conhecido e inóspito. 
Lutando com a coragem resolveu aproximar-se dele...
- boa noite!
_ ... Hã... Olá, que surpresa vê-la aqui. Sente-se. O que vai beber?
_ uma cerveja escura, por favor.
_ Quer comer alguma coisa? Eles tem um ótimo rosbife por aqui que pode ser acompanhado de batatas e legumes. Divide comigo?
¬¬_ Boa pedida!
(continua)...

As palavras de Angella soaram surdas, abafadas. Respirou, então, muito fundo e seus pensamentos realmente não estavam presentes ali, naquele pub, face a face com Joe! E um rosbife era tudo que ela podia desejar, naquele momento meio conturbado para ela, e sentiu que mataria uma fome não apenas de seu físico, mas ainda enganaria consideravelmente sua fome de justiça.(Graça)
Olhou demoradamente para a caneca de cerveja, e seus pensamentos tumultuados acalmaram-se e voltou ao ambiente em que estava, observando tudo ao redor e não entendeu como não se apaixonara por esse homem de ombros largos e fortes!(Graça)
Talvez por estar envolvida demais com o esposo, e depois disso com a dor da perda. Sentindo-se mais calma, preparou-se para saborear o rosbife. A companhia também era inspiradora. Joe era a conexão que restava com seu passado. Eles haviam se conhecido quando o marido e o filho de Angella ainda estavam vivos. Foi ele quem a amparou quando a dor foi tão grande que ela mal conseguia ficar de pé, logo após o fatídico acidente. E era ele quem poderia ter as respostas que Angella precisava para que o coração dela pudesse sossegar. Ou pelo menos se acalmar um pouco mais. O desespero em ver Joe, vinha dali. Depois de dez anos. Dez anos solitários, que não diminuíram a dor da perda. E Joe estava ali, junto dela, saboreando um rosbife. Ele havia sido a última pessoa que falara com seu esposo antes do acidente. E talvez tivesse uma peça do quebra-cabeças que Angella não conseguia encaixar.(Marina Carla)
Após alguns goles de cerveja, Angella sentia-se mais á vontade. Embora estivesse tão melancólica, quanto à noite lá fora...
Havia tentado se preparar, durante 10 longos anos, para aquele reencontro. Pensara minuciosamente em como se portar, o que iria falar, quais respostas queria ouvir,... Entretanto, não tinha como controlar suas emoções e enrubesceu.
Estava tão corada, quanto às batatas que o garçom acabava de servir e não tinha a mínima ideia em como iniciar a conversa que poderia trazer à tona a história do passado.
Quais seriam os segredos que Joe sabia e havia guardado por 10 anos???
Era exatamente isso que Angella gostaria de saber.
E definitivamente, ela não iria embora de Seaground, sem as respostas.(Silvana Haddad)
Após o jantar, Joe a convidou para um passeio já que a garoa havia dado lugar para as estrelas. Havia um grande jardim que ladeava o pub e ali Angella perguntou: _ Joe porque nunca mais se comunicou comigo? 
Ele pigarreou, coçou a cabeça e com um sorriso triste lhe disse: _ Angella, eu a amo... Aliás sempre amei e você sabe disso. Naquela noite , antes do acidente, Carlo e eu tivemos uma discussão. 
Ele soube que eu estava no Brasil e que iria vê-la... 
Angella sentiu seu estomago revirar e uma leve tontura a fez quase desfalecer e Joe teve que segura-la. Então seus olhos se encontraram num turbilhão de sentimentos e ele ameaçou beija-la... Angella o empurrou dizendo:
-Não me interessa teus sentimentos. O que disse a Carlo naquela noite?
-Nada além do que eu e você já sabíamos...
- Joe... Não me diga que... Não, você não seria capaz!
Meio sem forças Angella sentou-se em um dos bancos do jardim, olhou para o céu e não pode conter as lágrimas.
Joe se ajoelhou à sua frente, pegou em suas mãos dizendo:

-Meu amor, eu não queria que as coisas tivessem acontecido dessa forma, por isso eu sumi de circulação. Eu abdiquei de tudo para deixa-la em paz e seguir tua vida, embora sempre tivesse algo que nos uniria para sempre.
-Como então Carlo soube da verdade?
_Ele recebeu uma carta anônima que continha o exame de DNA. E, seguida ligou pra mim e na fúria que dele se apossou pegou a estrada de madrugada rumando para o hotel em que eu me hospedara. E você sabe como aquela estrada é perigosa à noite.
Nicolas dormia na cadeirinha no banco de trás quando Carlo perdeu a direção e... o resto você já sabe.

Angella, levantou-se cambaleando e pediu que ela a levasse de volta até a casa dos Freeman.
Na manhã seguinte, os dois se reencontraram e Angella já refeita do golpe, despediu-se dizendo:

-Adeus Joe, adeus para sempre. Nada mais nos prende um ao outro... Nosso filho foi-se juntamente com Carlo. O que posso desejar na vida nesse momento? Talvez o lançamento do meu livro, que eu espero seja um grande sucesso.
-Posso ir no coquetel de lançamento?
_Se quiser será bem recebido e irá se lembrar da sombra do casario naquele fim de tarde.(Lu Cavichioli
The End

Autoras:
Lu Cavichioli
Graça Lacerda
Marina Carla
Silvana Haddad
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