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domingo, 19 de maio de 2013

Lispector, Literatura e Artes Visuais


Retratos da escrita

Livro revela a íntima relação entre a escrita de Clarice Lispector e as artes visuais, além de sua grande amizade com pintores que afetaram sua vida e obra

17 de maio de 2013 | 2h 08
UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo
Clarice Lispector pintava com as palavras. A força que irrompia de seu olhar dominou sua criação, a ponto de inúmeros críticos literários notarem em sua escrita os reflexos da profunda relação que mantinha com as artes plásticas.
A escritora Clarice Lispector - Reprdução
Reprdução
A escritora Clarice Lispector
"A atmosfera pictórica contamina a escrita de Clarice Lispector em aspectos mais ou menos visíveis", observa o português Carlos Mendes de Sousa, professor de literatura brasileira na Universidade do Minho, em Portugal, e um dos grandes especialistas na obra da escritora, que morreu em dezembro 1977, um dia antes de completar 57 anos.
Ele é autor de Clarice Lispector - Pinturas(Rocco), livro no qual analisa trechos de romances, crônicas, contos e até da correspondência, que comprovam a presença do universo da pintura em sua vida e obra. A começar pela pintora que é protagonista de Água Viva, além das diversas amizades que Clarice manteve com artistas como De Chirico e Ceschiatti, que também a pintaram. E ainda de sua enorme disposição de também pintar, forma de arte que lhe garantia paz de espírito.
Também pintora, Clarice Lispector dizia que suas telas eram produto de uma diversão. "É relaxante e ao mesmo tempo excitante mexer com cores e formas, sem compromisso com coisa alguma; é a coisa mais pura que faço", confessava. Em seu livro, Carlos Mendes de Sousa comprova, na verdade, que a relação era vital - segundo ele, a escritora utilizava seu talento visual e plástico na escrita, através de técnicas impressionistas (utilização de comparações e repetições) e das expressionistas, na tentativa de captar o mundo das sensações. Sobre o assunto, o pesquisador respondeu as seguintes questões.
Clarice encontrou soluções para seus questionamentos pictóricos por meio da escrita?
Acho que sim. Mesmo que não exista uma lógica causal direta, podemos dizer que os processos são indissociáveis. Procurei ler os textos com as pinturas ao lado e, reversivamente, ver também as pinturas com os textos ao lado. Creio que esse exercício nos mostra acima de tudo a força e a coerência extraordinárias da pulsão criativa de Clarice. E tudo se ilumina. O caso de Água Viva é particularmente significativo. Acabamos lá sempre quando falamos de pintura em Clarice. O interessante é que aquilo que lemos neste livro, de 1973, antecipa a experimentação pictórica que irrompe com grande intensidade, em 1975, ainda que existam quadros anteriores.
O fato de um amigo tão próximo, como Lúcio Cardoso, ter se direcionado à pintura no final da vida foi também decisivo para Clarice?
É muito provável que esse exemplo tenha ecoado em Clarice e a tenha mesmo impulsionado no ato de pintar. Parece-me que terá sido um dos fatores, entre outros, que estimularam a sua prática pictórica. Clarice possuía inclusivamente na sua coleção um quadro de Lúcio (reproduzido no livro). A seguir ao derrame, Lúcio deixou de comunicar com a palavra, trocando-a pelas tintas e pelo pincel. Impossibilitado de falar e de escrever, e tendo ficado com a mão direita paralisada, passou a usar a esquerda para pintar. Este drama marcou profundamente a escritora. Quando entrevistou Iberê Camargo, ela mesma referiu o caso de Lúcio, a propósito do questionamento sobre o ato criador e sobre as possíveis diferenças entre os processos criativos do pintor e do escritor.
Clarice discute a "essência" da pintura como uma procura de relações incertas entre o que se olha e o que se sente, entre o reino das coisas e o da memória?
Sim, creio que o que define a obra de Clarice é uma incessante procura. Num dos fragmentos do livro Para Não Esquecer, lemos: "Se eu tivesse de dar um título à minha vida seria: à procura da própria coisa". A pintura em Clarice também deve ser perspectivada nessa direção. Nos primeiros livros, encontramos reflexões muito elaboradas sobre essas relações incertas entre o que se olha e o que se sente; penso concretamente num livro de matriz alegórica como A Cidade Sitiada. Progressivamente, nos textos dos anos 1970, essas reflexões dão-se a ver de uma forma mais liberta. E como que deságuam nos próprios quadros que pinta.
É possível encontrar proximidade da técnica de escrita de Clarice com alguma técnica de pintura em especial? 
Alguns críticos, como Olga de Sá, chamaram a atenção para procedimentos da escrita de Clarice que tinham afinidades com técnicas de pintura. Esta professora fez mesmo uma aproximação com técnicas impressionistas no que diz respeito à forma como Clarice tentou captar sensações através da escrita. Desde a década de 1940, Clarice frequentou ateliês de pintores, na Itália. Mais tarde, já no Brasil, quando entrevistou artistas plásticos, muitas vezes os visitou nos seus espaços, questionando-os sobre as técnicas e os métodos utilizados. Há, de fato, uma familiaridade muito grande com o universo da pintura. Veja-se, por exemplo, como nos seus textos encontramos muitas reflexões em torno da polaridade figurativo versus abstrato. Mas tudo em Clarice é difícil de arrumar em categorias rígidas. Recorro mais uma vez a um dos fragmentos de Para Não Esquecer ("Tanto em pintura como em música e literatura, tantas vezes o que chamam de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu"). Para as suas pinturas, Clarice criou um método, apresentado pela voz de Ângela Pralini, em Um Sopro de Vida. A personagem fala de "técnica de liberdade". Também na pintura, como na escrita, Clarice não está presa a modelos. Ela está permanentemente a experimentar, mas não se trata de um experimentalismo artificioso. Ela olhou de frente o escuro, como pouco fizeram.
Fonte: aqui.
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