segunda-feira, 28 de abril de 2014

CONTO INTERATIVO - "MEU MUNDO E NADA MAIS"

CONTO INTERATIVO - UMA AVENTURA E TANTO!
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"MEU MUNDO E NADA MAIS"

(PARTES I,II,III e IV)

PARTE I
Alguém poderia perguntar: “nesse mundo tinha gente?” Talvez...
“Do alto do antigo edifício de biscoitos eu observava figuras esquálidas que mais pareciam retalhos de gente, que se agitavam em passadas frenéticas”.

Bombinha era sobrevivente do velho “mundo”. Era uma espécie de museu ambulante, posto que trouxesse consigo histórias de humanidades e suas (possíveis) vidas.

Nesse estágio de sua passagem pela Terra, ele ainda mantinha a mesma postura de antes. Estatura mediana, rosto arredondado e olhos de azeitonas gregas. Seus cabelos já mostravam que ali nasceria em breve uma carequinha simpática e totalmente inusitada naqueles dias de transformação.

Metido em uma camiseta (Hering) desbotada revelava a pança que (com certeza) deveria ter nascido com ele. Usava na ocasião da fuga (há tempos) uma bermuda caqui, esfarrapada e “chechelenta” como ele todo.

Suas bochechas ainda guardavam o formato das maçãs que não eram assim tão vermelhas como dantes. E na boca lhe sobrara alguns dentes e um picador de papel na arcada superior.

A fábrica de biscoitos há muito arrasada, era agora seu lar. E sorte a dele porque no subsolo existia uma passagem secreta onde ele fazia suas refeições fartando-se do carboidrato que sobrou antes do cataclisma fomélico da geração vigente.

Um dia qualquer Bombinha construiu um radinho de pilha, mas não havia mais pilhas , então ele utilizou uma bateria que roubou de um oldsmobile amarelo no fim da rua que restou lá na esquina do fim do mundo. Ele esperava comunicar-se com algum ser vegetal, assim ele não precisaria dividir seu carboidrato com ninguém.

De repente lembrou-se de sua velha mãe que ficava na beira do fogão fritando batatas enquanto ele sorvia uma garrafa de coca-cola glicólica.
Bombinha chorou! (continua)
*Lu C.

PARTE II
Imaginando-a surgindo sorrateira na soleira da porta, Bombinha chorou. E entre as lágrimas que escorriam pelo seu rosto bochechudo, recordou a estranha aventura pela qual passara todos esses bilhões de anos! Por um breve momento (questão apenas de alguns anos-luz), Bombinha cogitou que, desta vez, sim, desta vez possuía uma missão mais que especial, única, e talvez a última de sua extenuante jornada. Os outros mundos de onde viera e onde passara seus últimos e ricos bilhões de anos não lhe concederam, infelizmente, aquilo de que Bombinha mais precisava e que seu coração mais ardentemente desejava! Ser aceito incondicionalmente. Era tudo.
Bombinha era de tal modo viajante e conhecedor dos mistérios cósmicos, que isso não lhe permitiu ter contato de perto com palavras que não pertenciam a seus mundos! Definitivamente, não conhecia palavras como indiferença, desafeto, desamor, frieza, incoerência, corrupção. Nada disso pertencia a seu pequeno grande dicionário, já que era também um museu ambulante, na estratosfera e fora dela.
Certo dia calmo como aqueles em que as rãs brejeiras e as lagartas gostam sempre de se espreguiçar, Bombinha recebeu a inóspita visita de uma figura humana, vestida de um uniforme esquisito, acompanhado por mais alguns, do mesmo modo de se vestir, e ele não entendeu nada, apenas que eram sérios e não chegaram para brincar com ele, como faziam seus amiguinhos no porão.
Ao vê-lo em suas vestimentas simples, rústicas e um tanto descuidadas, os humanos deram-lhe ordem de prisão. Continuando sem entender o que se passava, Bombinha, criatura que viera do cosmos mais distante e que conhecia todas as via-lácteas desse infinito universo, passeava por elas, ficou a olhar aqueles homens de farda, muito diferentes dos que viviam com ele no subsolo da casa grande, a que chamava seu lar, e onde só havia moradores ilustres, companheirinhos de chão e de coração, na acolhedora e antiga fábrica de biscoitos! Fábrica que ele temia também ser desapropriada pelos que se chamam humanos, e aí - pensava, agoniado - onde iria morar?...
Sim, ele que conhecia e convivia apenas com seus ilustres moradores, via-se agora envolvido com agentes policiais, homens da lei, que vieram para buscá-lo, pois uma denúncia anônima ressoava nas praças públicas, em todos os cantos daquela quase cidade-fantasma, que Bombinha era um refugiado sem chances, pois pertencia a alguma espécie de máfia.
Pobre Bombinha, herói supergaláctico, não tinha ninguém em quem confiasse o bastante, para tirá-lo sem mais demora daquela deplorável e inacreditável situação.
E, uma vez mais, nosso Bombinha - indefectível museu ambulante - chorou!(continua)
*Graça Lacerda

PARTE III
Quando Bombinha se viu acuado por homens altos, carrancudos e desprezíveis, escondeu rapidamente seu estoque de biscoitos, lançando um olhar desafiador do tipo: "como se atrevem a invadir propriedade alheia". Foi aí que percebeu que eram soldados e se perguntou se essa estirpe ainda existia depois do cataclismo em que a Terra fora vítima. Levantou-se com dificuldade porque eu peso já excedia sua cueca samba canção e aíi fez um sinal aos homens para que esperassem. Em seguida desapareceu em um dos vários labirintos que a fábrica escondia. E quando voltou, veio transformado: Exibia uma boina camuflada e um blaiser um tanto esfarrapado. Vestia um índigo blue amarrotado e cheio de manchas de graxa e nos pés um coturno bem desgastado. Chegou empinado e já batendo continência para os carrancudos de plantão que já demonstravam impaciência. Tomou coragem e encarando-os disse: - O que querem e como entraram em minha propriedade? Esta fábrica pertence a meu pai e agora a mim, por direito. E... de onde foi que vieram? De qual galáxia e qual o planeta? Por favor queiram se apresentar. Dito isso, abriu uma lata de biscoito de chocolate recheado de baunilha e mandou ver, enchendo as bochechas de sabores. Os homens rústicos se entreolharam, balançaram a cabeça fazendo caras e bocas... Enquanto um deles disse: Caso perdido! Vamos deixá-lo com sua pança e bochechas rosadas comendo desordenadamente; isso enquanto houver biscoitos. Mas o que eles não sabiam é que Bombinha escondia algumas surpresas no porão. E depois dessa nem descobririam, a não ser que algum caminhão coberto com lonas chegasse de supetão naquele exato momento. E assim, Bombinha descansou enquanto sorvia de canudinho sua bebida glicólica... (continua)
*Lu C.

PARTE IV
Pensou, pensou e como seus pensamentos moviam-se à velocidade da luz, justo num clique Bombinha conseguiu finalmente dar sua primeira gargalhada, desde que desandara a percorrer mundos e universos astrais, esfomeado, devorando como um leão pacotes e pacotes de biscoitos high-tech! Não apenas riu da situação em que se encontrava, mas sua gargalhada soou tão gostosa (e balofa!) que estremeceu céus e terras, cantos e recantos da nada mole vida do intergaláctico viajante. Ora, Bombinha não era por natureza um imenso museu ambulante? Toda sabedoria dos séculos e dos milênios ele retinha consigo, desde o início dos tempos. Por essa sua singular natureza, conseguiu, como num passe de mágica, passar, de acuado que estava, a valente e corajoso soldado - mesmo que ''de mentirinha'', pensava, e continuaria a colocar pra correr valentões carrancudos, fazendo-os darem ''meia-volta, volver!'', colocando-os sem violência alguma para fora de sua propriedade, herança de seu amado pai. A fábrica era dele, pronto! Que petulância, a desses homens da lei, sobreviventes como ele, talvez nem fossem reais! E em suas gordas reflexões recheadas de sabedoria e de biscoitos, Bombinha considerou que pudesse ter sido apenas mais um daqueles sonhos esquisitos que tinha sempre, e dormiu. Estava exausto: de comer e de pensar. E quanto mais pensava, mais comia. Comia com tal voracidade, que cansava.
Enquanto isso, os homens rústicos bateram em retirada e logo se podia vê-los gesticulando com outra criatura, em semelhante ação de abordagem, numa outra propriedade, não muito longe dali.
-Todos têm sua missão, retrucou Bombinha, namorando o centésimo pacote.
Depois disso, aquietou-se. Logo em seguida, começou uma sessão de gargalhadas, quanto mais altas, mais balofas, só ao lembrar que apenas algumas roupas surradas e o seu solene bater de continência, foram suficientes para intimidar a afugentar certas criaturas também sobreviventes do cataclisma na Terra! Bombinha estava certo de que eles não o incomodariam mais. Nunca mais! E ria, às gargalhadas soltas! E quando ria, sacudia a enorme pança que adquiriu em suas andanças pelas viagens astrais. Nesse momento, não conseguiu ingerir os últimos biscoitos recheados de chocolate! Os recheios sim, ele comia numa fúria gigante, pois os devorava primeiro, nessa sua gula transcendental! Os farelos dos biscoitos caíam, caíam...e Bombinha ria e ria ao perceber que seus amiguinhos moradores do porão estiveram o tempo todo ali, ao lado dele, alimentando-se das sobras que ele deixava cair, como se pudessem protegê-lo de todo perigo que seu amigo pudesse correr!
Com o tempo, Bombinha passou a comer mais e mais. Comia agora diariamente outras guloseimas. Ingeria a bebida glicólica em doses assustadoras, devorava sozinho uma pizza para doze, um copázio de pipoca de cada tempero e sabor, e um belo dia acordou e viu que seus belos olhos azuis foram ficando ainda mais vidrados e sentiu compaixão de si mesmo, pela primeira vez! Só conseguiu ver que o enorme sanduíche, que mal cabia na palma de sua própria mão, agora, ao contrário de momentos antes, dava gargalhadas de sua triste e incontrolável situação.
Pobre Bombinha! Obeso, segredos guardados nos labirintos da Fábrica e ainda com uma, apenas uma MISSÃO a cumprir. O que fazer? Mais uma vez, Bombinha quis chorar, porém como agora possuía o controle de seus sentimentos, engoliu o choro, deixou guloseimas, levantou-se determinado e saiu, levando um propósito bem definido em seu coração. Tomara uma atitude. Qual seria? Onde teria ele ido e o que teria ido fazer? (continua)
*Graça Lacerda 


EPÍLOGO

Nosso garoto amarrotado, obeso e solitário sentia-se desolado. Ao sair de seu sofá cor de burro quando foge no andar térreo da fábrica, olhou tristemente para o saco de biscoitos de baunilha e sua inseparável “mamadeira” cibernética pela qual sorvia o líquido mais doce que conhecera na vida... Coçou a nuca, meneou a cabeça, sorriu brevemente ao ver um pássaro sobrevoando a praça destruída e, decidiu então descer sorrateiramente uma escada em formato de caracol que ficava do outro lado da sala. Enquanto seu rosto exibia o pavor das guerras, decerto iria travar uma.

Ao chegar a um dos corredores subterrâneos ouviu um barulho estranho que vinha de um dos labirintos, o maior deles. Era um tanto escuro e pegajoso, mas Bombinha conhecia cada palmo de chão e assim foi andando pé ante pé e foi aí que viu uma sombra esgueirar-se rapidamente para outro segmento daquele vasto salão que mais parecia um quebra cabeças gigante.
Bombinha levou um susto enorme e sua boca abriu porque seu cérebro corpulento o impulsionava a engolir batatas fritas que ele guardara no bolso já alguns dias e que tinha roubado da sacola de um dos homens carrancudos. Sentia-se seguro mastigando algo e/ou mascando borrachinhas coloridas que encontrava pela fábrica.

Ele sabia que não poderia mais fugir de sua decisão, ou missão. Apertou o passo e gritou:
-Quem está aí? Saia imediatamente porque estou armado... ARMADO? Ora bolas... Bombinha achava que poderia se defender com uma gravata que tinha achado nas coisas do pai e em sua cabecinha de melão a usaria para estrangular a tal sombra.

Parou, limpou o suor da testa e gritou:
_Apareça seu ladrão de biscoitos, seu larápio e surrupiador de balas. Pensa que eu não sei que você está atrás de meu baleiro - gatuno?!

A sombra passou de volta e mais rápido que antes.

Bombinha correu e achou a passagem secreta, mas ela se tornara pequena para seu corpo de barril, mas mesmo assim tentou passar. Era uma portinhola de madeira com um trinco cheio de zinabre e muito fedorento. Estava se esforçando para entrar por ela quando sentiu um toque em seu ombro. Um toque nada sutil, aliás, a mão era bem pesada e os dedos eram grandes e fortes.

Nosso amiguinho ficou entalado, tanto pelo medo quanto pela pança de carboidrato e tremeu na base. Foi aí que fez força para sair da fenda e quando olhou para trás nada viu. Pensou que estava ficando louco de vez.
Depois de se refazer do susto, sentou-se no grande corredor e proferiu algumas palavras...

_ Eu sabia que você viria algum dia, eu esperava por isso. Mas precisava ter uma mão tão pesada? E por que não mostrou seu rosto, já que foi tão valente para me tocar? RESPONDA SOMBRA INÚTIL!

A ira tomou conta de Bombinha e ele caminhou de volta chutando toda sorte de parafernálias que encontrava, chegou à boca da escada de caracol e subiu bufando...

Mas quando adentrou no andar térreo deu de cara com uma figura “estreboscópica” sentada em seu sofá burro quando foge. E o pior, estava sorvendo sua bebida glicólica e devorando seus últimos biscoitos.

Bombinha estancou. Ficou tão pasmo que sua voz não conseguiu subir até a boca.
A figura em questão, sentada no sofá, era rosada e devia pesar uns 300 quilos ou mais. Vestia um camisolão surrado e empanturrado de manchas que deveriam ser de molho de tomate, ou suco de abacate... Ou quem sabe cobertura de sorvete e o que mais - VOCÊ, leitor, quiser imaginar...

Os olhos eram esbugalhados e a bocarra exibia um sorriso cariado.
Nos pés não cabiam mais sapatos, porque eram disformes...
Quem seria essa aberração?

Num ímpeto Bombinha o encarou dizendo?

-Muito bem montanha humana, quem é você e o que faz em minha casa? Pensa que é dono do mundo, e que pode comer minha comida assim sem pedir licença?
VAMOS, FALE!

... Ajeitando-se no sofá, a montanha humana respondeu:

- Sou a sua consciência!

(* Lu Cavichioli)
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