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quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Homem que Lê









Eu lia há muito. 
Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil. 







Olhei as suas páginas como rostos 
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. — 









De repente sobre as páginas lançou-se uma luz 
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem. 







Então sei: sobre os jardins 
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. — 





E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança: 
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.





E quando agora levantar os olhos deste livro, 
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras; 





apenas me entreteço mais ainda com ele 
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma. 





E parece que abarca todo o céu: 
a primeira estrela é como a última casa. 






Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" 
Tradução de Maria João Costa Pereira



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