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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ainda Feliz Natal



Eu olho o traçado que a luz desenha no soalho, filtrada por um pingente que balança no falso pinheiro de Natal, e penso que Deus está mesmo nos detalhes, ou no retângulo que salta do piso como uma tela virtual, um abstracionismo que a refração da luz me oferece assim, inesperadamente, materializada no chão do escritório. Estou há não sei quanto tempo mergulhado na caverna virtual, em busca dos arquivos de Natal, à cata de um sentimento específico: o acordar na manhã do dia 25. Cedo. Muito cedo. Antes dos adultos. Descer as escadas e encontrar a imensa mesa, montada sobre cavaletes para acomodar toda a família, ainda posta, com as iguarias cobertas por guardanapos de papel. E os brinquedos ganhados na véspera a minha espera, ali, no pé da árvore. Rabanadas, ameixas e cerejas, que eram raras naqueles tempos em que se suspirava por uma calça Lee. Lembro-me especialmente dos olhos de uma prima que ganhou uma calça Lee, num daqueles Natais em família. Era a mesma que tinha a foto de Richard Chamberlain presa com durex no interior da porta do armário. 

Ela rasgou o papel enfeitado e olhou a calça com adoração. Esperava por ela havia muito tempo. Afinal, aquilo era artigo que só se encontrava nas importadoras. Eu também, entrando na adolescência, juntei dinheiro e fui à rua da Alfândega comprar meus jeans, que ficaram largos, porque insistiram que eu ia espichar e a calça não ia servir mais. Mas não fui o único, garanto. 

Estou fazendo uma varredura nesses arquivos e é impressionante como ali a juventude das primas manteve-se fresca, todas bronzeadas no fim de dezembro, trocando frascos de Gelatti, cada qual com sua cor favorita. Muitas primas, sempre. Marli, Marisa, Edilma, Edna, Edilza, Eliana, Eliete, Celi, Celma, Célia – escolhiam uma letra e, a partir dela, batizavam a prole. Enquanto isso, é claro, davam asas à imaginação. Era, também, nesses imensos encontros de família, quando se exagerava no vinho, que se diziam coisas e se criavam mágoas. E as mágoas cresciam e duravam todo o ano, até o próximo perdão natalino. Eu ia escutando histórias, ou fragmentos delas, e lembro claramente de olhar para os adultos como personagens. Um outro tipo de desenho animado, se me entendem. 

Ah! Acabo de encontrar um pedaço do plástico que era costurado para servir como toalha para a mesa da ceia. Nos arquivos, guardou-se o padrão: renas, trenós e guirlandas. O vermelho e o verde estão intactos. Ainda vibrantes, não desbotaram. Além dele, há uma infinidade de sons, cores e paladares que vamos guardando, não sabemos bem por quê, mas que agora, ao descobri-los – papéis de presente, doces cristalizados e canções –, percebo que se mantiveram ali para que eu ainda possa escrever uma crônica de Natal. E desejar os votos de costume, além de um abraço longo. Um abraço apertado. Fruto do amor que fomos plantando ao longo da vida. Um Feliz Natal aos leitores, portanto, ainda que apenas a ideia, a lembrança, guardada nos nossos arquivos, intacta, perfeita, incorruptível.
 (Miguel Falabella, ISTOÉ Independente)
*Miguel Falabella é ator, diretor, dramaturgo e autor de novelas

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