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domingo, 4 de dezembro de 2011

Natal dos pobres


(img:alteredpagening)


Natal…
Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para
lá as árvores despidas não bolem. A vida parou. As
nuvens andam a esta hora a rastro pelas encostas
pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na
natureza se concentra e sonha. Há entanto um grande
rio envolto que nunca cessa de correr…
Longe pelos caminhos, através de pinheirais
cismáticos e calados, vão velhinhas tristes, de saia pelos
ombros, para consoar nessa noite com os filhos. Andam
trôpegas léguas e léguas. As suas mãos calosas, as caras
enrugadas, onde as lágrimas abriram sulcos, os olhos
tristes, contam o que elas têm passado na vida, dias sem
pão, suor de aflições, desamparos, maus tratos…
Os cavadores deixaram os arados mortos nos
campos, que a chuva alaga. Que tudo repouse. O
vinho de hoje conforta, como as lágrimas choradas
pelas nossas desgraças, o lume de hoje aquece como o
amor de nossas mães.
Nos soutos, sob a chuva que cai mansa e continua,
andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz
esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão
de pai. Partem, chegam, vêm muito longe, para verem
os seus meninos, matando saudades. Quase não comem
e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que tem
atrás de si uma vida de martírio e fomes, dizem:
– É hoje o maior dia do ano…
Na lareira arde um canhoto. Cai o nevão. A cozinha
é negra, de telha vá, é negro o frio, mas as almas
sentem-se agasalhadas. Por um buraco avistam-se as
estrelas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das pinhas,
abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu
rosto, bebem o vinho aquecido em árvores que as suas
mãos cortaram…
Sentados ao lume não falam. As brasas vão-se
extinguindo como um poente, ou como uma alma que
vai deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado a
estrela reluz, o nevão cai com um ruído das flores
desfolhadas, e cada um cisma em alguma coisa de
indeterminado e vago, de longínquo; em certa hora da
vida, na mãe, num filho ausente, naquela morta que
passou seus dias a sacrificar-se por nós…
– O lume apaga-se…
– Deitai-lhe canhotos.
O lume apaga-se e as sombras da noite, em revoadas,
vêm escutar-nos atentas.
Os pobres são como os rios. Estancam a sede da
terra, fazem inchar as raízes e crescer as árvores;
acarretam; moem o pão nos moinhos. Ei-la a vida da
terra. Todas as catedrais se construíram da sua dor; sem
eles a vida pararia.
Natal dos pobres! natal dos pobres!… Porque é que
criaturas misérrimas encontram ainda na sua gélida
nudez horas para recordar e amar? Pobres repartem o
seu pão; espezinhados dão-nos das suas lágrimas. Vinho
quente! vinho quente e amargo, que sabe a aflição!
Chegam-se uns aos outros para se aquecerem. Nas
enfermarias, nos sítios onde se sofre, os míseros e os
doentes quedam-se muito tempo a cismar. Os pobres
pensam que existem seres ainda mais pobres, lares
desamparados, onde nem o lume se acende; cuidam
numa velhinha, que, a essa mesma hora, cisma,
abandonada, e sozinha, ao pé de brasas extintas no filho
doente, no filho ausente… Há cabanas nuas, lares rotos,
almas mais gélidas que o nevão.
As lágrimas que se choram e se não vêem são as
melhores: caem sobre a alma.
Sofia sobe as escadas com uma caneca de vinho
quente, para repartir com o Gebo. Na sua fisionomia há
um cansaço enorme.
A chorar, misturando-lhe lágrimas, o velho, mais
gordo e todo branco, bebe o azedo vinho quente das
prostitutas. Depois abraçados soluçam na trapeira fria.
Fora não se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam.
Põem-se a cismar na mãe que descansa na terra
encharcada. Tudo tão triste, dias sem pão, e o amor a
prendê-los, a uni-los, mais forte que a desgraça. Não
protestam, não têm forças para gritar. Baixinho o velho
Gebo e a filha choram aquela que a terra primeiro tragou.
– Se o Senhor também nos levasse…
E Sofia bebendo do mesmo copo:
– Tenha paciência, tenha paciência…
– Se o Senhor nos levasse juntos, na mesma hora…
Cuido que não tinha tanto frio.
– Aí tem pão.
– Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse
contigo, minha filha, não tinha tanto medo.
– A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as
precisões e as lágrimas…
– Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora,
acaba-se também a desgraça.
– Aqui tem o vinho.
Natal dos pobres, noite de comunhão, noite de
lágrimas e saudades! Não é chuva que cai sem ruído,
são lágrimas. O Gebo abre a janela e põe-se a falar para
a escuridão com palavras que a noite escuta, com
palavras que a noite leva.
Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres.
Com os cotovelos fincados nas tábuas, olham o vinho
quente e cismam… Ceia de natal! Ceia de natal!… Até
as prostitutas se querem lembrar… Moídas de pancadas,
têm más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se
pequeninas para que lhes perdoem uma vida infame.
Falam! falam!… Parece que a mesma primavera
negra fez dar emoção a estas criaturas exploradas e
servidas. Lembram-se da sua vida, sempre lágrimas, risos
sem piedade… Uma começa:
– Ninguém canta?
E logo outra, como se as palavras lhe saíssem de
golfão:
– Eu cá foi por fome que me desfrutaram. Ninguém
queria saber de mim e a minha madrasta calcava-me aos
pés.
– Eu não sei como foi…
– E eu então – continua – foi por fome. O pai estava
escarangado e a minha madrasta era tão má, que, por eu
me demorar num recado, partiu-me um braço.
– Pois eu foi assim de repente… – diz outra.
– Ia pela rua fora. Vinha da fábrica, começou a
chover e uma lama!… Tinha frio e um homem pôs-se a
falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquilo
foi… E a falar, a falar, até me doía o coração! E nunca
mais o vi. Se o vir acho que nem o conheço.
– Enganam e nunca mais querem saber.
– A mim minha mãe bem me pregava mas a gente
que há-de fazer?
– Ontem os soldados puseram-me o corpo negro –
diz uma.
E mostra a triste carne magoada, os seios murchos
e com nódoas. No ombro os ossos furam-lhe a pele.
– Quando eu morrer… oh quando eu morrer!…
– Tola!
– Que tem? Tenho ali a roupa apartada.
– A mim, enganaram-me, levaram-me… Eu não
sabia nada. Depois comecei a servir. Enganavam-me e
punham-me fora… Depois não tinha mais para onde ir…
– Eu cá tive um filho…
Uma que estava calada soluçou no escuro. E como
todas se voltassem pôs-se a rir e a ajeitar os cabelos.
– Eu tive um filho e pus-me a criá-lo.
Depois disso o meu amigo nunca mais quis saber.
Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o
inocente e ele punha-se a rir. – Mulheres não
faltam, dizia-me. Vai-te! – E a gente fica feia. Vai
um dia e disse-me: – Se cá tornas chamo a polícia.
– Eu chorei até não ter mais lágrimas e acabou-se
tudo. São todos o mesmo. Noutro dia vi-o, mas ele
fingiu que não me conheceu.
– E o teu filho era bonito?
– Era um anjinho do céu. Tanto chorei que secou-se-
me o leite de chorar. A gente sempre e mais tola!…
Pôs-se muito chupadinho e morreu.
– A Maria já deitou um à roda.
– Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria
por ele. Não tinha coração para o dar a criar.
– A gente não podemos ter filhos.
– Eu cá era uma inocente. Até me dá riso! Tinha
treze anos e foi logo ao entrar para a fábrica. O mestre
foi quem me desfrutou. Agarrou-me, mas eu não sabia e
pus-me a chorar. – Cala-te! se dizes, vais para a rua! –
Abandonou-me, outros vieram… A gente há-de cumprir
o seu fado.
– Eu cá fui um miminho. Meu pai tinha de seu…
Depois tudo esqueci, porque senão a gente morria. Meu
pai era muito meu amigo. Era preciso não ter coração
para o enganar. Nem ele podia supor mal de mim, nem
do outro que entrava na nossa casa. Meu pai era também
muito amigo dele e tinha-lhe valido sempre. Ainda me
lembro, quando meu pai comigo no colo me dizia: – Tu
és o meu coraçãozinho… – Eu sempre tive um colo!
Olhai: embalava-me como às crianças. – Falta-te a tua
mãe, mas eu sou a tua mãe, queres? – Era uma dor do
coração enganá-lo e nós enganámo-lo ambos. E eu bem
sabia que ele era casado, mas mentia-me…
– Porque será que os homens mentem sempre?
– Mentia-me sempre, e eu era inocente. Mentiu-me
e mentia a meu pai. O pior é que um dia fiquei
grávida. Começou o meu castigo. – Vou-lhe dizer tudo.
– Diz – disse ele. Mata-lo. Se queres diz… – Eu calei-me.
– E agora? – Agora… – Eu já lhe não queria, acho
mesmo que nunca lhe quis deveras. Foi uma desgraça.
Já estava escrito que fosse desgraçada, acabou-se!…
Depois não podia esconder o meu erro. Só meu pai não
reparava… E ele que me imaginava uma inocente!…
Esperai… – E agora? agora?… – perguntei-lhe. Então
arranjei com que meu pai me deixasse ir com ele e a
mulher para uma quinta. Se vós vísseis! A pobre da
mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a pior que a um cão.
– Cala-te! e ela calava-se, a pobre. – Fala! – e ela falava.
– O estupor, tu não te calarás! – Ela tinha os cabelos
todos brancos e vai eu um dia perguntei-lhe quantos anos
tinha. – Trinta – respondeu-me, e calou-se. Fiquei
passada. O homem diante dela dava-me beijos para a
ver chorar. Dizia-lhe: – Vou dormir com ela, ouves,
velha? – E dormia comigo. A senhora não dizia palavra.
Chorava e punha em mim uns olhos tão tristes, que
faziam aflição. Um dia que ficámos sozinhas, ela disse-me:
– A menina há-de ser uma infeliz. – Eu chorei; e ela
com a mão nos meus cabelos, a fazer-me festas! –
Coitada! coitada, que sorte a sua tão negra!… Ainda eu…
– Porque não o deixa? – perguntei-lhe. – Já me tinha
deitado ao rio se não fossem os meus filhos.
– Ele sempre há desgraças! Às vezes mais vale ser
mulher da vida.
– Esperai pelo resto. Tive as dores uma noite no
verão, em a gosto, e a pobre da senhora é que me tratou.
Ele levou-me logo o filho. Na outra sala ouvi gritos. Vai
e atirei-me pela cama fora, sem saber o que fazia. – Onde
está o meu filho? – Fui mesmo de rastos e pus-me à
porta a escutar. Eles berravam. – Se falas esgano-te! –
dizia o malvado à mulher. – Mata-me! – tornava ela. –
Tu queres a minha desgraça? Estorcego-te! – Depois ouvi
um grande grito e fiquei como morta. – O nosso filho? o
meu filho? – Nasceu morto. – A mulher a um canto
chorou. Chorou sempre depois.
– Tinha-o matado, o malvado?…
– Tinha. Afogou-o na latrina. Depois veio a polícia.
Esperai… A criada ouvira os gritos. Sabe-se sempre
tudo, o diabo tapa dum lado e descobre do outro. Ele
fugiu para o Brasil, eu fui presa, e meu pai diante duma
ingratidão tão negra – quereis crer? – estalou-lhe o
coração. Depois… depois… A gente quando nasce já tem
a sua sina escrita.
– E a ti?… Não falas? – perguntam a uma sumida
no escuro.
– A mim enganaram-me. Foi há tanto tempo que
já me não lembra. Tudo perdi.
– E a tua família?
– A gente não tem família.
Na noite, a um canto do Hospital o velho banco
de tábuas puídas, dá-lhe também para cismar. A ventania
parou. Duma fresta tomba luar. A treva amontoa-se ao
fundo, e, para além, nos corredores abobadados, arde
um lampião. Direis que o negrume remexe: pedaços de
escuridão destacam-se, escoam-se sem ruído pelas
muralhas húmidas e espessas. Mais para o fundo há como
um abismo, vala comum de treva empastada. Os gritos
redobram; depois, por momentos o silêncio sufoca, como
o dum sepulcro.
– Se é luar que cai daquela fresta… – cuida o banco.
– Se fosse luar!
Pela escada vê-se a enfermaria onde os lampiões
em fila dão uma claridade triste, que mostra os corpos
moldados em branco, caídos nos leitos: parece uma
necrópole subterrânea e imensa.
– Se fosse luar… – Há que tempos que não sinto o
luar. Era como um ruído branco que me envolvia outrora
na floresta. Neva às vezes luar. E havia ainda outras
vozes… Sempre se sonha, quando certas noites nascem!
Era diferente… Havia rumor nas folhas e o vento dizia
aos ramos histórias acontecidas noutros montes. Há
épocas em que o vento traz noivados, ais de sapos,
frangalhos arrancados às flores… Se aquela poeira fosse
luar… E se o luar se pusesse a correr sobre mim, aquecendo-
me como outrora, quando em mim subia não sei
o quê de misterioso e forte?
Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os
últimos lampiões apagam-se um a um, como se alguém
lhe soprasse. É a Morte seguindo o seu caminho. Sombras
esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais
calada, maior, vala infinita, a que uma luzinha dá alma.
E o banco cisma:
– Há que tempos que não sinto em mim a luz da
manhã, que traz consigo a vida de tudo o que existe, dos
rios, das outras árvores, nem o sol a crescer em vagas de
oiro, nem a água verde, melancólica, e tão mansa entre
os choupos que parece ir vogando já morta… Sinto-me
transido… Transido? Isto é corno fogo, mas trespassa208
me de frio. E não há nevão, mas ouço sempre gritos, ais,
dores… Oh se fosse luar!… Destas enfermarias corre
também um sonho parecido com luar… Será uma fonte?…
As fontes! nem te lembres das fontes!… Aqui parece que
as minhas fibras mergulham num mar revolvido, que eu
ignoro, mas que é feito de gritos.
Baixo a pedra começa também a lembrar-se e
àquela hora perdida da noite toda a alma inconsciente
do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e logo
esquece… Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes,
materializam-se e são como nuvens: são de fogo, são de
luar. Sombras aos bandos dissolvem-se, para outra vez
se criarem.
– Acho que sempre é luar… E quando havia sol?
Torrentes corriam pelo meu tronco, inundavam a minha
roupa cascosa e em volta numa poeira azul andava um
turbilhão de bichos. Outras árvores flutuavam na mesma
poalha e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata.
Longe – e que encanto aquela companhia sempre
presente e amiga! – o fio do rio chalrava. Folhas caíam e
iam devagarinho viajar sobre a água verde. Para onde?…
Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raízes
quantas vidas protegi e defendi!… As minhas raízes
tocavam na vida!… Às vezes caia um pé de água, mas
depois vinham sempre teias de sol, fios de sol, para me
enredar – e o sol traz consigo um cheiro a terra e renovo
que consola, o hálito dos montes e dos pinheiros meus
amigos.
Nas temporadas fúnebres em que a água cai a
golfões, a gente concentra-se e fica meio adormecida.
Os montes envolvem-se em nuvens, os bichos na terra
tremem de frio sob as raízes e as folhas secas estalam e
gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes
se descerra a névoa, os montes são mendigos, com um
grande manto remendado. Ao fim da tarde levanta-se
dos campos um lindo luar azulado que sobe e se dispersa.
É a névoa. Baba de oiro luz na água e os choupos são
sombras. Ao longe havia um biombo verde de pinheiros,
depois montes, e depois poentes doirados… Porque é que
me ponho a pensar e a cismar? Há tanto tempo que
dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Há-de
ser do luar… Oh se ainda houvesse luar!
As mulheres calaram-se. Não há ruído. Elas
próprias sonham. Em torno da mesa, na cozinha
saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas
pensam decerto num lar e bebem as lágrimas que caem
no vinho e o gelam.
– A esta hora a minha mãezinha há-de por força
pensar em mim… – começa uma.
– E tu porque não foste consoar com ela?
– Punham-me fora! queriam-me lá!… Meu pai,
meus irmãos…
– Em minha casa faz-se uma consoada muito
grande. Assam-se pinhas no lar, e minhas irmãs
pequeninas… oh minhas irmãs pequeninas!…
E sufocada desata de repente a chorar. As outras
não se riem como de costume. Só uma, sentindo que
iam todas chorar, canta:
Se vires a mulher perdida…
– Raparigas, é o fado… De que serve agora chorar?
Ninguém foge ao seu fado.
– À noite a minha mãe aquecia vinho e dava-mo
na cama. Sempre a gente é criada para uma vida! Quem
adivinha?
– Cala-te!
– Eu era o miminho de todos, eu…
– Só eu nunca tive mãe, de mim ninguém se
importa! Acabou-se! Cala-te! cala-te!…
Na escuridão as cinzas que restam num lar fazem
tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar:
são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor
sufoca. Assim o Prédio ao abandono, sob a enxurrada,
parecia cismar, como um rescaldo coberto de cinzas.
Parara trágico defronte do Hospital, e cansado, tal como
um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.
Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm
pão e se juntam friorentos em torno dum lume que não
aquece; natal dos seres que a desgraça usou… O vinho
enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que
jamais se apaga: – Amanhã! amanhã!…
Que poesia tão triste não vai caindo como um choro
sobre aquelas almas de misérrimos, de gebos, de
prostitutas, de desgraçados!
Numa trapeira o gato-pingado quer dizer: – Amo-te!
– mas foi sempre tão nu que não sabe exprimir o que
sente.
Na alma daquela criatura humilde, despida e
escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar,
fizera-se um clarão. Tal o espanto enternecido duma
pedra a que uma raiz se apega e que a olha deitar flor na
primeira primavera. – Fui eu, apesar da minha secura,
pensa o calhau, que a trouxe no ventre.
Sem falar, bebem juntos, ele e a pobre, o mesmo
vinho. Ele diz:
– Ambos somos desgraçados e sozinhos.
O vinho que havia aquecido dá-lho com um pedaço
de pão. Ela olha-o, tendo sempre crescido por acaso
e piedade, rota e triste. Havia pois alguém que a
amasse?…
– Bebe.
– É tão bom a gente estar junta.
– Não se tem frio.
– Esta noite, sabes?… Lembro-me de minha mãe…
Porque seria que ela me enjeitou?
Fora choram. Ela ergue-se e vê no corredor uma
rapariguinha que a mãe pôs fora da porta e que chora e
pensa.
– E se eu me deitasse a afogar?
Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, mísera,
rota, ressequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:
– Deus te crie para boa sorte…
Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.
Meia-noite! meia-noite!… Para que tudo se crie,
para que o pó se transforme em vida, que é necessário?
Torrentes de chuva, oceanos de água. Eis a vida… Para
que do que é matéria algo de radioso irrompa, que é
preciso? Um atlântico de lágrimas.
Da matéria tem nascido à custa de gritos, de fibras
torcidas, o imorredoiro espírito. Através das idades ele
se criou, através da dor veio surgindo. O mundo espiritual
é já hoje mais vasto que o mundo material. A dor é a
primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar
na morte há sempre gritos. A dor ara o céu cheio de
estrelas e os seres humildes.
Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no
infinito? Destes pobres espezinhados, revolvidos, nascem
as coisas eternas – húmus, amálgama, protoplasma,
espírito lácteo, com que se constroem os mundos. Na
vala comum os seus corpos, cansados de sofrer, são a
vida da terra: as árvores, o pão, as formas, a seiva
esplendente. No infinito é da sua dor que se sustenta
Deus.
Maio de 1899 / Janeiro de 1900.
(Raul Brandão)
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