domingo, 30 de setembro de 2012

O que é ensinar?

Uma interlocução entre Psicanálise e Aprendizagem Inventiva[1] 



A Educação é um universo de possibilidades que vai desde a discussão sobre sua essência até a tentativa de definir o que deve se ensinar. Da forma ao conteúdo, existe uma dispersão que necessita de referência, para escapar da imensidão e assim ser viabilizada como saber neste campo.
Nesta busca incansável de suprir a necessidade de ensinar, ou ensinar a ensinar, a educação se assemelha a ciência, criando novas didáticas a cada dia para dar conta do que é impossível.
Cada vez mais, a didática se afasta de ser uma arte e passa a não só se assemelhar a ciência, mas também pertencer a ela.
Conforme o pensamento científico transformou-se em modelo da produção de conhecimento, a educação – buscando os mesmos padrões – transformou-se em metodologia. Cada vez mais, os conteúdos a serem ensinados provêm do domínio do conhecimento científico.
A educação está sempre ensinando o que é científico. Onde está o ensino da ética, da estética, teologia e outros ensinos de humanidades? Quando estes aparecem no currículo, estão sempre vinculados a ciência.
Se buscarmos uma nova concepção de aprendizagem, quebrando o paradigma da ciência moderna e das correntes da psicologia cognitiva, encontramos um olhar para o lugar da invenção. Um ponto subjetivo em meio a regras e determinismos.
Neste sentido, aprender não significa uma simples percepção e conhecimento de um objeto, no qual o sujeito e o objeto já estão pré-definidos. Há um processo neste intermédio que sobre a ótica temporal, faz com que a aprendizagem não se limite ao conhecimento do objeto, mas que haja uma problematização.
A colocação de um problema que faz com que em um processo de devir – podemos dizer devir filosófico – a invenção tenha lugar. Não se trata apenas de solucionar problemas, mas de inventá-los.
Assim entendemos, como em um processo de devir, de invenção - divergindo da ciência determinista – um músico compõe, um escultor esculpi, um pintor pinta, um apreciador absorve a arte e um professor ensina.
Esses momentos de invenção não se encontram nas explicações científicas nem nas ciências psicológicas. Só aparecem como derivações ou habilidades da inteligência.
A psicanálise traz contribuições para esta questão, a partir do ponto em que também se difere de uma ciência que quer apresentar respostas e soluções prontas.
A partir do conceito de inconsciente estruturado como linguagem, também aponta para o lugar da subjetividade.
Sob esse prisma, a psicanálise traz reflexões sobre a transmissão e o ensino. Acrescenta que a educação assume a ciência como conteúdo privilegiado para a transmissão do saber e ao fazê-lo, esse discurso passará a condicionar as hipóteses sobre a transmissão do conhecimento.
No entanto, na visão psicanalítica, esse discurso não consegue enunciar totalmente a transmissão, sempre permanecerá uma “sobra” que não se conseguirá teorizar. Esse resto se apresentará como dificuldade de se ensinar tudo a todos. Escapará algo como dedicação e amor que não se ensina didaticamente. Assim, a psicanálise considera que na arte de educar há algo que só pode ser pensado na categoria do impossível.
Esse impossível não está nos moldes da ciência moderna, onde não existem impossibilidades, onde o professor tudo sabe e o aluno aprende com o professor.
A partir dessas duas teorias – Aprendizagem inventiva e psicanálise – proponho uma reflexão sobre o que é ensinar.
Em ambas as teorias, há um apontamento para o subjetivo (descartado pela ciência) e a introdução da questão do tempo como algo de imprevisível neste processo.
Se a arte de educar é da ordem do impossível e não pode aprisionar-se ao modo científico, como se ensina?
Não irei oferecer respostas, já que estas não existem nem para a ciência que se encarrega de tê-las, mas sim propor reflexões na contramão destas respostas , embarcando nas teorias em que ensinar e aprender são processos inacabáveis.


Márcia Muller – Educadora e Psicanalista


[1] Teoria criada por Virgínia Kastrup, doutora em Psicologia pela PUC-SP e professora do Programa de Pós-graduação do Instituto de Psicologia da UFRJ.
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