quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Que ternura de progenitora!!!


EVOCAÇÕES DO PASSADO



Quando mamãe convidava: - “Vamos almoçar fora?” - corríamos todos, alegres: providenciar a mesa no nosso grande quintal... e indagávamos: - agora?

- Mamãe, vai ter cabrito? – Sim, meus filhos, e também vai ter rolinha e paturi na Noite de Natal... (Somente a cabritinha preferida de minha irmã não ia para o assado. Ponto final! (Ia para a escola, seguia minha irmãzinha até o Grupo Escolar!)

Naquele tempo, carne grelhada, forno “microondas” e tantas novidades não faziam parte do nosso cardápio diário. Mas sorríamos. E éramos felizes!

Que rica, cheirosa e saborosa era a macarronada que mamãe fazia!... Sempre tentei, sem nunca acertar, fazer uma igual! E era mesmo italiana, aquela iguaria: o molho grudadinho no fio, “pegou carona, não solta”, ela dizia...

Comíamos alface, abóbora e couve-flor. Tudo feito com o mais gentil amor. Jiló, então,com quiabo, por favor!

Meu irmão chegava do colégio e procurava, ávido, pela sua carne moída: - “Com arroz, sem feijão, minha mãe.” Era seu gosto, que nos causava, a todos, indignação.

O empregado de papai tinha um gosto mais “apurado” que esse agora revelado: arroz com farinha, pasmem! Vivia branco, o coitado! (Talvez tivesse anemia!) “- Também, não come feijão!” – dizia mamãe, ao servi-lo. Seu nome? Antônio Beleza, talvez por tanta magreza! Só víamos nele os dentes, lindíssimos de morder...

Um grande pomar ao redor sugeria a todos fartura (e felicidade): chupávamos manga e laranja, tirando tudo no pé.

Não fomos dados a festas, churrascos e comedeiras. Mas não passavam em branco as festas de aniversário, com bolos e brincadeiras! Gostoso era sentir o “céu”, quando salpicavam bolinhas... “ – Estrelas redondas, mamãe? Também vou roubar a minha...” E lá ia o dedo, uma, duas, três, quatro vezes, na estrela brilhante e branquinha, ao que mamãe corrigia: “ – Não ponha a mão, minha filha, já vamos cantar parabéns.”

Que linda infância de festas! Os anjos dizendo Amém!... Que linda infância eu tive, recheada de doces de abóbora, pamonha e curau que mamãe fazia, e corria alegrinha a pedir: “ – Levem um pouco para Dona fulana e não se esqueçam de Dona beltrana! Que na sequência seriam: as vizinhas, a lavadeira, a costureira e as tias.

Almoçar com as primas, então, era meu céu nesta terra! Apostávamos quem terminava primeiro – e tinha prêmio também: passeio na casa da tia (do "tio do papagaio"), correr nas ruas por perto, andar de bicicleta, ou mesmo olhar os nenéns... nas noites lindas de estrelas em noites de céu aberto!!!

Gostoso comer de tudo! Arroz jamais foi cuscuz e cuscuz, nunca bala de aniz... Mas onde foi que encontrava pequenas, sutis semelhanças nestas três delícias da infância? O arroz, preparado “frito”, era minha glória do olfato! Cuscuz, que vovó oferecia, nada sobrava no prato. E as balas de aniz, azedinhas, era papai que vendia, aos montes, no empório (com jeito de céu) – que nos Natais recebia uma visita singular: trazendo as “marias-caxuxas” o nosso Papai Noel!

E a gente tirava o chapeu: pra aquelas delícias que via! Macarrão, para mim, ainda hoje, rima (como na infância) com a palavra salmão. Menos, é claro e evidente, com o sabor do feijão.

A primeira experiência “estrogonófica” que tive, foi na casa da minha tia: “ – Come, menina, que é bom”. “ – Não, tia, que tem gosto estranho de leite!” “ – Mas é este o segredo dos pratos: que a nossa alma deleite!”

Por falar em deleitar, fui testemunha ocular do primeiro “chiclé” brasileiro! Não era comprido: quadrado. Deliciosamente disputado. Era aquela correria ao revelar o “premiado”!

Manjar branco, carolinas, quindins (finas iguarias!) ah! minha madrinha ajudava. Para esperar os parentes que chegariam de longe, ansiosamente aguardados.

Suflê de ameixas negrinhas, que faço ainda hoje pros meus, ficaram em minha memória em uma gostosa e saudosa forma de adeus!

Arroz doce com canela, esfriava ávido na janela! Era muito pequena e mal alcançava o quitute... Satisfazia-me com o cheiro, que o vento se encarregava de perfumar, ondulante, nosso enorme terreiro!

Surgiam do nada: guisados, doces e bolos, de todos os cheiros e todas as receitas! Broinhas de fubá? –era “pra já”. Biscoitos assados a lenha, no fogão contador de histórias: “ – De quem você gosta mais: do papai ou da mamãe?” “ – Dos dois!” – arregalava os olhos, mirando o mingau de aveia, nas noites frias de inverno, que mais parecia uma ceia!

Chocolate quente, quem quer? Ou leite queimado, bolo de fubá? Ninguém, em sã consciência, ousaria rejeitar! Nhocada, ensopado, bolinhos ditos de chuva... Ah! a saudade insiste em não querer dissipar lembranças que ainda existem, graças ao doce e tenro paladar!

Taioba, gabiroba,serralha... São nomes que ainda hoje ressoam, a desejar...

Caramelos, pudins, quadradinhos, bolo Alpino. Com recheio, sem recheio, quem se importava? Na verdade, o que apetecia era fazer, literalmente, a festa: leite moça? dedo na lata; massa do bolo de três? só com raspas de limão, na minha vez!

E salada colorida, com chuchu e beterraba! Para enfeitar o prato, com carinhas brincalhonas, tentando imitar um gato – enfia palito aqui e ali... e... bigodes, orelhas, olhões – achava graça do gato!

E não faltava o licor! De amendoim, abacaxi ou de leite?...

Frangos, massas e peixes, os quisesse variados, era uma ordem em casa: coberta de tantos carinhos, adivinhando o que vinha depois – sorrisos, carinhas sujas – ela fazia com amor! E comíamos ainda quente! Não só porque quiséssemos e ficássemos contentes, mas porque mamãe não se agüentava para ver estampada em nós essa imensa felicidade: degustar sem cerimônias aquelas ricas e saborosas iguarias!

Dizia que as “tias finas” tomavam o “chá das cinco”; eu, às vezes participava, sem entender ainda a pontualidade britânica...e nem dava, então importância.Saía correndo a brincar.

Enfim, nós crescemos, nós mudamos: de casa, de idade, de vida. Mamãe se foi para o céu bem antes do combinado! Sei que está hoje fazendo não mais os quitutes da terra, porém os manjares dos céus.

E se ontem não se esquecia de nossos aniversários, hoje, mais do que nunca, desfiando seu rosário, lembrando dos tempos idos, participa com o Eterno Deus do Imenso Banquete esperado pelo novo povo escolhido. E diz a seus convidados:

"- Estão servidos?"

Pouso Alegre, 18/05/03 - Graça Lacerda (saudade da infância...)
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